A falta de professores deixou de ser um problema conjuntural para se tornar uma ameaça estrutural ao direito à educação. Quando não há professores suficientes, não há inclusão possível. As equipas multidisciplinares ficam incompletas, os horários de apoio são reduzidos, as valências especializadas perdem recursos humanos fundamentais para um acompanhamento dos alunos eficaz e profícuo e as adaptações previstas na lei tornam‑se letra morta.
As valências especializadas de apoio
à multideficiência e de ensino estruturado (autismo) funcionam agora muitas
vezes apenas com um professor especializado e uma Assistente Operacional para
seis ou mais alunos a necessitar de cuidados básicos e acompanhamento
permanente. Outras funcionam só de manhã, obrigando as famílias a terem respostas que,
por vezes implicam alguém deixar de trabalhar. Em muitas delas não há técnicos
especializados que possam apoiar as escolas e os alunos, obrigando as famílias
a mais uma despesa adicional, das muitas que decorrem das necessidades
prementes e permanentes dos seus filhos.
As valências especializadas têm a
sua função desvirtuada quando, em vez de 2 docentes de Educação Especial e 2
Assistentes operacionais com formação especializada em permanência, funcionam
com metade do que seria desejável. Isto implica falta de adultos acompanhantes na
escola e em salas de aula, o que conduz inevitavelmente para que a inclusão não
se cumpra e a igualdade de oportunidades não seja efetiva.
Quando não há recursos humanos para
acompanhar os alunos, estamos a concentrar alunos em salas que supostamente
seriam ferramentas de apoio à inclusão, mas que se transformaram num fim em si
mesmas.
Isto é contrário ao consagrado na lei, traduzindo-se numa forma silenciosa
de exclusão: desigualdades que se aprofundam, percursos que se fragilizam e
oportunidades que se perdem. A escola pública, que deveria ser o espaço de
maior equidade social, vê‑se impedida de cumprir a sua missão.
Num levantamento que a FENPROF
realizou em novembro de 2025, mais de 80% dos Agrupamentos inquiridos referiram
não ter os recursos necessários para uma Educação Inclusiva, quer docentes
especializados como Assistentes Operacionais. Os casos mais graves são onde
esta carência mais se faz sentir dado o rácio de professor-aluno ser mais
exigente.
Os concursos de docentes ficam
vazios, o número de alunos com necessidades graves aumentou e muito
especialmente com Espectro do Autismo e as escolas veem-se no dilema de gerir os
apoios com um lençol curto que vai deixar alguém de fora.
Acresce ainda que em alguns casos os
Agrupamentos desviam docentes do Grupo 910 para substituir turmas sem
professor, ou para projetos deixando a descoberto alunos a necessitar de apoio.
A criação de um Regime de Educação
Inclusiva, demonstra ser uma peça retórica que falha e falhará, sem os devidos
investimentos, especialmente naqueles que mais deles necessitam.
É urgente valorizar a profissão docente, garantir condições de trabalho
dignas e assegurar a estabilidade necessária para atrair e reter profissionais.
Sem professores, não há inclusão. E sem inclusão, não há verdadeira escola
democrática.
Ana Cristina Gouveia
Jorge Humberto Nogueira
Publicado na revista Escola Informação do SPGL em JAN/FEV 2026
Imagem: IA
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