O atual governo está a promover o maior ataque à Escola Pública desde o 25 de Abril, através de uma agenda neoliberal conservadora, que vai desde a destruição da carreira dos professores, à alteração dos currículos, passando por uma práticas gerencialistas e de perda da pouca autonomia das escolas.
Nada do que está proposto é favorável aos docentes ou ao sistema público educativo. Esta questão fundamental passa ao lado de um debate público sério, que deveria envolver também os professores, sempre arredados destas supostas reformas, que não são mais do que a velha receita do retrocesso e do economicismo.
1. Gestão à distância ou hiper gerencialista
O atual Ministro da Educação, Fernando Alexandre, docente de Economia e Gestão da UMinho, criou a AGSE (Agência para a Gestão do Sistema Educativo, I.P. ou EduQa, I.P.), responsável pela gestão administrativa, financeira e de recursos humanos do sistema educativo, de administração indireta do Estado, dotada de autonomia administrativa e financeira e de património próprio. Dito por outras palavras, assume competências até aqui exclusivas do ME. Esta arquitetura tem como objetivo agilizar procedimentos como os contratos de associação, a contratação de serviços externos, como por exemplo a digitalização dos exames e preparar a entrada de organizações privadas, como os mentores “Teach for All” ou as anunciadas plataformas de tutores de IA. Os serviços do ME estão externalizados nesta agência, isto é, são geridos por um instituto autónomo e privado.
Com esta agência, o Ministério da Educação, Ciência e Investigação (MECI) demite-se das escolas, entregando a gestão do sistema a uma entidade com administração indireta do Estado, passando ainda competências para as CCDR e autarquias. Com a descentralização de competências, iniciada nos governos socialistas, as escolas passaram a ter uma dupla tutela, o ministério e a autarquia. Com esta agência as competências do ministério da educação passam para um instituto privado. Prevalece o excesso de burocracia, a confusão de competências, a ausência de respostas e a falta de apoio às escolas. É disto exemplo as queixas dos diretores sobre a desarticulação criada pela nova agência de serviços essenciais ao funcionamento das escolas, bem como a trapalhada dos exames nacionais, cujas mudanças radicais na metodologias de aplicação prejudicam sobretudo os alunos da Escola Pública, como se demonstra por exemplo, com os atrasos à correção e digitalização e o escândalo da prova de Português.
2. Carreira destruída com menos direitos
A proposta de revisão dos ECD favorece a descentralização das contratações, colocando em risco a atual lista graduada nacional, que é o único garante de justiça nos concursos e da cobertura territorial, abrindo caminho para injustiças e assimetrias. O concurso passa a “procedimento concursal” e os quadros passam a “mapas de pessoal”. Ou seja, prepara a precariedade e a contratação localizada e casuística, baseada em entrevistas e amiguismos.
Paralelamente acaba com a carreira especial dos docentes e transforma os professores em técnicos da função pública, avançando com o sistema genérico de avaliação SIADAP,com referência ao ReCap, onde o topo da carreira é uma miragem, para além de introduzir metas que não respeitam a especificidade desta atividade, que passa a ser administrativa e burocrática, centrada nos resultados e reforçando os rankings, logo, as virtualidades do ensino privado, a reserva das elites endinheiradas.
Isto traduz-se em precariedade e caciquismo, uma carreira fragilizada e em desaparecimento e diluída de carácter funcionalista com objetivos burocráticos.
3. Descaracterização do serviço público
Anuncia-se também uma revisão curricular de contornos tenebrosos, onde com a desculpa de eliminar conteúdos e práticas ideológicas se tenta impor uma visão conservadora que já se fez sentir nas alterações da Cidadania, nas propostas de obras de leitura obrigatória e continuará pela história e filosofia e não deixará de fora as restantes disciplinas.
Os sinais estão todos à vista. A cumplicidade do MECI no retrocesso da legislação sobre a identidade de género, que penaliza os jovens e coloca em causa as medidas protetoras e de inclusão em vigor nas escolas, vem na sequência da retirada de um guia para professores, "Direito a Ser nas Escolas" que promove inclusão e proteção destes jovens.
A anunciada fusão de ciclos, sem auscultação nem debate, a completa ausência de soluções para a falta de professores, com a fasquia das habilitações a baixar, a desvalorização da própria profissionalização na contagem de tempo, são apenas alguns exemplos de medidas, nenhuma delas favorável aos docentes. Mostram um MECI sem um rumo para a qualificação do sistema público de educação e apostado na sua fragilização.
O que faria um MECI apostado em defender a Escola Pública e a profissão docente?
Uma verdadeira negociação do ECD teria de ter em conta o atual contexto de falta de profissionais, pouca atratividade para jovens e esgotamento dos atuais professores, debatendo a valorização do salário, avaliação formativa, contagem integral do tempo de serviço e correção das ultrapassagens, equidade entre setores de ensino, horários equilibrados, melhores condições de trabalho, aposentação e concursos justos.
É necessário responder aos problemas estruturais das carreiras e do funcionamento das escolas e devolver a autonomia e a decisão aos professores. Promover um debate profundo e participado sobre Educação, mas com quem efetivamente vive a escola, cria conhecimento e promove aprendizagens. É urgente restaurar a democracia na gestão e na participação efetiva em processos de decisão partilhada onde todos possam ter voz.
Infelizmente, a conjugação dos fatores em revisão traduz-se na desregulação da carreira e na sua fragilização, bem como na descaracterização da Escola Pública conquistada com Abril, preparando um sistema dual e assimétrico com professores dóceis e sem direitos, para cumprir o sonho neoliberal de, por um lado, evitar que os filhos dos trabalhadores se sentem ao lado dos filhos da elite e, por outro lado, fazer o Estado pagar o negócio do privado com fundamento nos rankings e sob a patética desculpa da “liberdade de escolha”.
Mais um pacote para cair
Esta revisão do ECD não pode passar, pois em última análise é a Constituição e a democracia que estão em causa, neste caminho para uma sociedade pobre e sem futuro, sem igualdade de oportunidades ou de direitos.
O Bloco de Esquerda terá de priorizar a defesa da Escola Pública e dos direitos dos profissionais da educação, contra as aventuras neoliberais, garantindo que a educação universal de qualidade não é um privilégio, juntando-se à luta dos docentes pela sua valorização.
O caminho é, por isso, óbvio: unidade e intervenção dos professores, necessariamente organizados nas estruturas de trabalhadores, para construir uma maioria social que derrote a proposta do MECI. É assim na educação, é assim em todo o lado, pois nunca nada nos foi dado, tudo foi fruto de muita luta. Nas escolas, em todo o lado, sejamos construtores dessa luta.
A criação do Estatuto da Carreira Docente permitiu estabilizar a profissão, definir critérios de entrada e progressões, mas de todas as vezes que é revisto, seja qual for o governo, é sempre no sentido de retirar direitos aos professores e educadores. A luta pela democracia e pela autonomia nas escolas está associada à defesa da Escola Pública e dos profissionais que nela trabalham, pois está em causa o direito à educação pública universal de qualidade.
Publicado em 1 de julho de 2026 no Esquerda. net
Imagem: IA
