A direita portuguesa aprovou na generalidade a alteração à Lei n.º 38/2018, que garante o direito à autodeterminação e expressão de género, num claro retrocesso de direitos consagrados e ao arrepio de profissionais da saúde e organizações científicas nacionais e internacionais.
Trata-se do regresso à patologização das identidades transgénero,
que tem impacto direto na dignidade e saúde dos jovens, pois não se trata de um
diagnóstico clínico, mas sim de um direito humano à autodeterminação.
Estas alterações põem também em causa as medidas informativas,
preventivas e de suporte, que a escola tem obrigação legal de desenvolver,
sendo preocupante a forma como o MECI embarca nas diversas aventuras
conservadoras, reproduzindo um discurso imaginário de “ideologia de género”,
com reflexos negativos nos alunos e famílias, que deveria defender e promover.
Já tinha sido excluído um guia destinado à proteção destes
jovens nas escolas, mais tarde foi alterado o currículo da disciplina de
Cidadania com claro recuo nos temas relacionados com a sexualidade e agora
vemos que o MECI se cala, protagonizando mais um ataque ideológico em temas de
direitos humanos, pactuando com a substituição da ciência pelo preconceito.
Esta tendência já motivou a tentativa de descriminalização
das chamadas “terapias de conversão”, que voltam novamente a ser discutidas
porque se cria um clima de normalização do preconceito e do ataque às minorias.
O resultado é o recrudescimento do ódio, da perseguição e do
bulliyng, numa população jovem cada vez menos informada, mais desprotegida e manifestamente
mais isolada e descriminada numa escola que se apregoa como inclusiva. Este é também
um sinal muito nefasto para a sociedade, cada vez mais desumanizada e violenta
para esta população.
Como professores sabemos o quanto estes alunos precisam de
apoio e de alguém com quem falar em fases fundamentais da construção da sua
identidade, sendo obrigação da escola promover o respeito, a segurança, o
desenvolvimento pessoal e o bem-estar de todos, através da implementação de
medidas inclusivas.
Para os professores o humanismo não é revogável, por isso
mantemos a necessidade de atuar na prevenção e promoção da não descriminação,
construindo espaços de liberdade e respeito numa escola livre de preconceito ou
agressão, através de ações de informação, de acolhimento e escuta dos jovens.
Deve ser também promovida a formação de docentes e alunos,
reforçada a educação para saúde e sexualidade, bem como implementado o acompanhamento
especializado, que não existe, pela falta de respostas ou de equipas
multidisciplinares.
Há que desenvolver formas de deteção e intervenção,
envolvendo as famílias, que garantam um desenvolvimento saudável das crianças e
jovens, assumindo condições e comportamentos que respeitem a individualidade e
a expressão de cada um, independente da idade.
Uma escola Inclusiva é um espaço de ciência e de direitos
humanos, onde se combatem as desigualdades e onde não há lugar a cedências
ideológicas ou pautas morais da uma direita com uma agenda de retrocesso social,
que vê no ataque à escola pública uma oportunidade de perpetuar as
desigualdades e o preconceito.
Jorge Humberto Nogueira
Publucado na Revista Escola Informação do SPGL em mar/Abril 2026
Imagem: IA
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